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Cine em Extinção

21 de março de 2013
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Texto por Vítor Peruch
Fotos por Marcelo Cabala


Ao chegar à rua Cussy Jr, atente-se a uma pequena loja, ao lado de um prédio, com paredes de vidro viradas para rua e contendo dentro uma espécie de Sebo, de bazar. Uma loja que vende mais do que discos, roupas, CDs, livros e filmes, vende também um pouco do seu charme, do seu jeito e dos ideais de Aran, o dono da loja, que chegou a Bauru há 20 anos, em 1993. 

Quando Aran chegou em Bauru, com ele veio também a proposta do grupo artístico, autônomo e autoral Autoboneco, que nesses 20 anos vem lutando para estimular a produção e a difusão cultural na cidade, através de oficinas, fanzines, mostra de filmes, festivais e apresentações de música. 

A loja “Extinção” surgiu em novembro de 2003, e vende raridades que podem agradar facilmente qualquer um que goste de música, como por exemplo, um vinil cor azul bebê, do Dire Straits, Brothers In Arms que eu só não levei pois não tinha um real no bolso, e outros milhares de discos. 

E apesar de tudo que pode ser encontrado na parte de baixo da loja, o que continua por surpreender e elevar o local acontece na parte de cima. Subindo as escadas, aos sábados, às 19:30, acontece o encontro do Cine Extinção, um evento que ocorre desde maio de 2011 e que tem o intuito de compartilhar uma vertente do cinema que se distingue da maneira que for possível do que já está consagrado, batido. Não que os filmes que Aran busque passar sejam para “quase ninguém entender”, ou então que ali não apareçam clássicos, como Aran comenta, mas o intuito é outro, compartilhar de algo que é raro de ser encontrado,  que está mesmo em extinção, mas que também se enquadre no apreço de Aran. “É bem pelo meu gosto, mas varia bastante, cara. Varia até por que às vezes eu quero assistir alguma coisa, filmes que eu não lembro direito. Mas geralmente são filmes de arte, filmes underground, filmes que não são convencionais, produções pequenas, é bem variado”, comentou Aran, que também faz cinema artesanalmente. 

O filme do sábado, dia 16 de março era “Conexões Desconexas” de Werner Penzel e Nicolas Humbert, considerado pela bem-conceituada revista francesa Cahiers du Cinema, em 2000, entre os 100 mais importantes documentários já realizados, e conta com o músico Fred Frith se encontrando com músicos de vertentes diferentes e compondo músicas de diversas maneiras diferentes, utilizando os instrumentos e as ferramentas mais variadas. O filme foi anunciado na página do Facebook do Cine Extinção como “INVENÇÃO PESSOAL, FREE JAZZ, FREE CINEMA & OS VANGUARDISTAS POSSÍVEIS SENSIBILIZADOS”, mas eu realmente não esperava encontrar um filme que fizesse enxergar o artista por um prisma bem diferente do que é passado pelo filme. 

Como um documentário de música, obviamente, a importância que devemos dar ao som durante o filme é enorme, porém em “Conexões Desconexas”, a presença de ruídos diferentes, entram em congruência com os excelentes instrumentistas que estão no filme. O barulho de um despertador, de um violino, de uma goteira, de um sax ou então da movimentada guitarra de Fred dão ao filme uma mística incrível, que aumenta ainda mais com o barulho também do ventilador da sala do Cine Extinção. 

Fred Frith em um momento do filme fala a outro amigo músico sobre o que ele pretende com sua arte, com seu trabalho, e comenta algo como “Eu não espero que minha música mude o mundo, quando era jovem poderia até pensar assim, e por isso não sou um pessimista, porém, hoje o que busco é atingir pessoas, indivíduos. Se uma pessoa após o meu concerto vem até mim e me elogia, diz que se comoveu com o que assistiu e que aquilo mudou e tocou ela de alguma forma, eu já me sinto realizado, e isso acontece muitas vezes”, apesar de não transcrever a frase de maneira integral, acredito que seja algo bem próximo a isso, me recordo pois no momento em que o multimusicista disse isso, acredito que eu tenha conseguido entender um pouco, mas bem pouco da essência não só do filme e de Fred Frith, mas também do Cine Extincão, do local, da loja, de Aran, das oito pessoas que estavam ali, e principalmente do grupo Autoboneco que luta para difundir a cultura e que às vezes consegue tocar pessoas com seus eventos, como aconteceu naquele sábado. 



O Cine Extinção ocorre aos sábados, às 19:30, na loja Extincão, localizada na R. Cussy Jr, 8-17. 

Contato: facebook.com/extinção 
facebook.com/autoboneco 
autoboneco.org


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Sem gritos ao Grito

25 de fevereiro de 2013
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Texto por Keytyane Medeiros
Foto por Jessica Mobílio 

Jack relativamente cheio, noite quente e bandas de rock. Esse foi o cenário da Seletivas do Grito Rock, no último sábado. Entrei na casa no início dos shows e a primeira coisa que vi foi o pessoal da banda Overturn terminando de se apresentar. O som era pesado e a galera tava curtindo pra caramba a guitarra, a batera e o vocal intensos e em conjunto. Excesso de informação de uma vez só, na minha opinião. Mas minha missão ali era esperar pela banda La Burca, que só se apresentaria dali a uma hora e meia. A casa mantinha vários movimentos de aproximação e afastamento do palco. Às vezes, o afastamento era para que algum grupo de pessoas pudesse ter espaço para dançar, pular ou bater cabeça uma nas outras. 

Alguém comentou comigo que esta seria a primeira apresentação da La Burca e minha curiosidade aumenta pela banda composta apenas por um duo de músicos. A demora na passagem de som e o horário (já passava das 3h) talvez tenham feito com que algumas pessoas deixassem o Jack e perdessem um ponto de virada importante na noite do Seletivas do Grito Rock.





La Burca fez uma apresentação interessante, com músicas menos “gritadas” e mais melódicas do que as bandas que se apresentaram antes, marcadas pelo violão e pela bateria em harmonia de “zig zag”, sem perder o tom pesado do rock. A vocalista Amandla Rocha subiu ao palco com uma faixa preta enfeitando a região dos olhos, chamando atenção para si, como se o som destoante da noite já não fosse por si só um bom foco de atenção.

Apesar da banda ser estreante, Amandla já é veterana no mundo do rock. Desde 1995 a moça de cabelos escuros se apresenta com a banda Autoboneco nos bares de Bauru. “Eu quero tocar para colaborar para que outras bandas [independentes] também surjam”. O público recebeu muito bem as músicas, se aproximou do palco e acompanhou com o corpo os vocais “psicodélicos” de Amandla. 

Sem gritos, com som pesado e autêntico, La Burca foi a primeira a trazer às Seletivas uma cara diferente das outras bandas que se apresentaram. A partir do seu show, os poucos ouvintes que ficaram na casa apreciaram três estilos variados de música, todas tendo como base as notas características do rock. La Burca vai ao Grito Rock’13 e promete com a sua inusitada ausência de gritos, ser destaque na programação local.


Para ver a cobertura fotográfica das Seletivas do Grito Rock, acesse nosso Facebook.

O CurtaBauru e o e-Colab são parceiros do Grito Rock Bauru 2013 e estão fazendo a cobertura jornalística integrada do evento. Confira a cobertura dos shows das bandas D.O.S. e D.I.E. também selecionadas para se apresentar no Grito Rock Bauru 2013 no site do CurtaBauru.

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Sobre cinco reais numa nova esperança

23 de janeiro de 2013
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Texto por Higor Boconcelo
Fotos por Jayme Rosica





       “A cena do rock underground deu uma estacionada por cerca de dez anos aqui na cidade, há uns dois anos começou a voltar”, conta Aran Carriel, vocalista da banda Autoboneco. Sons autorais e o grande leque de subvertentes do gênero são alguns dos ingredientes que não podem faltar ao bom rolê underground, somando também cerveja gelada e barata. Em sua quinta edição, a Festa do Exílio na Avenida Principal trouxe o que era preciso e um pouco mais (lê-se mais som bom e mais bebida barata).
      Com portaria acessível e espaço adequado, a antiga república que agora dá espaço ao 
Exílio ArtPub recebeu seu público fiel no último sábado prometendo nada mais que os ingredientes citados acima, o que para os presentes já estava de excelente tamanho.
      A primeira banda a impregnar o ambiente com som autoral inspirado desde grupos consagrados como Melvins, The Cure e Pixies à mangue-beat e trilhas sonoras de videogame foi a bauruense 
Dhámma. O baterista do grupo, Khalil Axcar, aprova a iniciativa do pub uma vez que “a apresentação de propostas de meios de expressão que não sejam os mesmos batidos de sempre, que respondem a outras demandas é algo absolutamente necessário para a formação crítica-cultural de uma pessoa, principalmente na faixa etária presente no evento (adolescentes e adultos)”.

Sobre cinco reais numa nova esperança
    Além do aditivo cultural, ele também afirma que o último sábado serviu como oportunidade de reencontros de amigos e chances para re-estabelecer laços, “principalmente pela localização do Exílio, um ponto crucial do desenvolvimento underground bauruense”. Falemos dela então.




A Avenida Principal e o Underground

 Facilmente perceptível a pluralidade da tal 
Avenida Principal. Ora, se o vizinho do Exílio já não fora danceteria, casa de pagode, rap, balada sertaneja e hoje se resume a uma síntese de todos os estilos passados?! Mas, em sua extensão, a Avenida já abrigou também dezenas de snoocker bars e pubs (quando não os dois ao mesmo tempo), que deram espaço ao cenário underground e que uma jovem memória consegue lembrar.
   Opções para todas as idades. O falecido Under Rock Bar era a casa das bandas independentes dos adolescentes bauruenses e também palco de vários shows de bandas conhecidas dos fãs, mas desconhecidas das fm’s, como também as conhecidas das fm’s mas odiadas pelos pais. Ficava a menos de um quarteirão da Avenida, enquanto esta abrigava na mesma época (2009) o também falecido Area 51, que abrangia um público mais adulto, ao apresentar bandas independentes de som pesado. Predecessor do antigo Area, o Áudio Galaxy também foi por anos palco de bandas independentes com estilos variados (destaque para o metal e o hardcore), servindo bebida gelada e cobrando barato a entrada.
    Persistindo como um dos mais longevos pubs da Avenida Principal, o Jack Music Pub, talvez mais lembrado e conhecido do que os outros, também é responsável atualmente por dar espaço a bandas independentes não somente de Bauru mas de outras partes do país.
   Em suma: o affair entre a avenida e o rock existe e não é de hoje, mas continuemos no 10-26.

Exilando os covers

     Desviando da fumaça e chamando a galera, apresentaram-se também a banda 
Recusa (regada a punk e hardcore), com mais de dez anos de estrada.
     Em meio aos shows, a 
Autoboneco de Aran subiu aos palcos trazendo seu autoral pós-punk com improvisações noises. E roubou a atenção de quem escreve. Mindfucking, a banda está prestes a completar 20 anos de estrada e conta com mais de dez álbuns. Sobre o nome da banda, ele explica que não é nada além da pura essência de seu símbolo, criado pelo vocalista aos 13 anos.

    Aran, assim como Khalil, comemora a iniciativa do Exílio em promover esse tipo de evento, dando oportunidade às bandas de usarem um bom espaço e fazer o que tem de ser feito. Como o músico mesmo disse, a cena está voltando a progredir na cidade, e aponta que “uma grande cagada das bandas, público e locais é lotar a casa com shows cover, mas não pagar as bandas autorais, essa desvalorização servil”. A banda reafirma dentro e fora dos palcos a importância do autoral quanto à personalidade e identidade da banda, e mostra que seguir seus ideais na música é plenamente alcançável.
   E para uma noite de sábado, em Bauru, na Avenida Principal, o único desejo que sobra é que o exílio continue.
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