Virada Botucatu 2012 - Entrevista : Luiz Melodia

24 de maio de 2012
1



Não dê pano pra manga lá no Estácio, moleque!

Por Sérgio Viana
Fotos de Renan Simão e Sérgio Viana

Chegamos afoitos adentrando os camarins improvisados da Virada, em Botucatu, perguntando: Cadê o Luiz? O Luiz já chegou?

Havia um compromisso. Durante a semana anterior tivemos que marcar, declarar, o horário exato em que estaríamos prontos para entrevistá-lo. E já haviam se passado uns 13 minutos. Porque foi difícil convencer um ao outro que era mesmo necessário deixar o show do Lucas Santtana.
Para nossa, não tão grande, surpresa. Não. O Luiz não havia chegado.

Ótimo. Mais um tempinho para pensar em como organizar as ideias na hora de fazer as perguntas. Ficamos tão imersos na entrevista com Santtana e com a própria Virada, que por um momento esquecemos que o próximo era, nada menos, que o Melodia, o garoto do Estácio.

O atraso estava de bom tamanho. Conseguimos organizar um pouco melhor as ideias e conversar com a produção, só para garantir que a entrevista estava em pé.

Quando ele chega é um pequeno alvoroço. Nós comportados, como dois experientes jornalistas, ficamos de lado aguardando, enquanto uma equipe de uma TV local acendia a luz e apertava o REC na cara de Melodia. Depois disso ainda esperar alguns fãs baterem fotos e relatar que alguém da família sempre foi muito fã do cara. E pra finalizar o próprio apresentador do evento, que também é radialista, põe o gravador em cena.

Não tinha porque achar ruim. A produção assegurou que na nossa hora ele ia falar mais tranquilamente.

E foi o que aconteceu. Em um dos camarins, de frente com Luiz Melodia.

Já faz alguns anos que você está com o show do disco “Estação Melodia”. Como você escolheu as canções do álbum e o por que de reviver essa época, de 30, 40...?
Pois é, veio a acontecer a gravação dessas músicas – esses sambas de 30, 40 e 50 -. Isso porque, eu quando garoto ouvia muito esses sambas, através de meu pai, meus tios, vizinhos lá no Estácio, onde eu nasci e fui criado. Então, com o decorrer do tempo, eu falei comigo mesmo: Pô, um dia eu vou gravar, vou prestar uma homenagem a esses grandes compositores, que foram os caras que fizeram o samba brasileiro, da maior importância pra mim e acho que pra muitos brasileiros.

E por ser marcante, eu entrei em estúdio em 2007, gravei o disco e o resultado foi muito bacana. Tanto que ta aí até hoje. Eu vou fazer uma turnê, agora em junho, na Europa, em umas sete cidades. E vou com o Estação Melodia, com esses sambas. Isso é um privilégio pra nossa música e uma satisfação imensa, um prazer enorme, de tá levando esses sambas pra rapaziada da Europa, pros ingleses verem.

Não é primeira vez que você homenageia seu próprio pai. Li, que você começou ali, vendo ele tocar com seus tios. Como você via seu pai ali criando e isso te transformar num músico também?
É que você, dentro de casa vendo seu pai tocando e tal... ainda bebê, ainda garoto, ele tocava violão e eu, é lógico moleque, ficava curioso. E desde então eu comecei a ter influência, a gostar da música. Ele foi a grande influência. Alguns sambas que eu já compus tem a essência dele. Na barriga da minha mãe eu já ouvia.

E meu é a grande... a grande.. essência musical, que fez com que eu enveredasse. Embora ele nunca deu muita força para que eu seguisse pelo caminho musical. Ele achava que dava pano, pra, pra, pra... tem um ditado que eu até esqueci agora. Pano pra renda?.. (sopro do fotógrafo) Pano pra manga! (hahahaha). Mas eu insisti, então não tinha outro jeito. Ele queria muito que eu fizesse medicina e eu num dei certo.

Nos anos 70 e 80 você, junto com Sérgio Sampaio, Jards Macalé e outros, foram classificados como marginais. Algo que muitos nunca aceitaram e nem viam sentido naquilo. Como você olha hoje para essa classificação?
Eu creio que o meu estilo de vida, por ser jovem, tinha-se uma rebeldia natural. Uma relação com a indústria fonográfica diferente. Pelo menos eu não cabia naqueles padrões, então me rebelava contra aquilo. Tanto escrevendo, quanto em reação, em agir de maneira diferente. Era toda uma mistura, tanto em relação ao lance político. A minha rebeldia vinha em atitude. Então os jornais começaram a intitular. E essa coisa de título, de rótulo, aliás, não me incomodava, mas eu acho uma coisa absurda. Acho que tinha que se compreender um cara que tava acontecendo, as suas razões e etc., mas nunca me incomodou, pelo contrário, só me fortificou.

(Apressados pelos produtores que depois nos culparam de atrasar a Virada) E hoje, você bebe das fontes de hoje, das músicas novas?
Nesse disco eu não bebi nada, na verdade eu prestei uma homenagem. Mas a música brasileira é rica, então, acho que desde que eu comecei a compor, eu venho bebendo, me vendo como um brasileiro. Nossa música é tão rica, desde o nordeste ao sul, por que não beber de todas as fontes? Acho que a gente tem que fazer o melhor possível. Fazer o mais bacana, para que gerações vindouras possam participar.