La Burca: o pós-punk folk do interior

7 de julho de 2014
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Texto: Keytyane Medeiros
Imagens: Divulgação

Uma palavra e pouco sentido num primeiro momento: pós-punklore. Essa palavra misteriosa, curiosa ou propositalmente, tem muito a ver com a banda que a criou. Segundo Amandla Rocha, vocalista do duo La Burca, pós-punklore é uma mistura de pós-punk e folk. “Simplão”, responde a moça de cabelos escuros e sorriso largo.


Confesso que a primeira vez que ouvi a banda, lá no começo do ano passado, nas seletivas para o Grito Rock 2013, achei o estilo muito diferente e destoante do que normalmente é genericamente conhecido como “rock”. E o show foi muito louco, uma verdadeira experiência sensorial com a música, assim, ao vivo, na lata, ou melhor, no Jack Music Pub. Sensorial mesmo, saca? De estar no show e não distinguir bem o que você tá ouvindo do que você tá vendo no palco, o som em fusão com a performance da banda. Em algumas entrevistas, Amandla e Lucas dizem que tiveram a idéia para o rosto que é a espécie de logo do duo ao desenhar os rostos de ambos com traços soltos e depois fundi-los numa imagem só. Acho que essa imagem casou bem com a proposta do duo. Não é fácil definir e encaixar em um gênero o som da La Burca, mas é possível saber que é a La Burca só de ouvir.

Pensando em pós-punk com bandas como Joy Division, Bauhaus e Public Image Limited, típicas do final da década de 1970, senti falta do sintetizador pesado nas composições. O violão elétrico é bastante marcado e, acredito eu, seja fruto da influência folk. Mistura interessante, sensorial. Amandla nos conta que o duo com Lucas surgiu em 2011, mas que os ensaios mais comprometidos, engajados com o projeto só começaram a partir do ano seguinte. Sobre o surgimento, a vocalista destaca sua inspiração, “eu havia acabado com a Kaspar Horse (banda guitar-noise) em 2011 e queria testar outras composições e sonoridades. Além de reaproveitar e reinventar algumas. Eu tinha muita música ‘parada’, sem uso, que não conseguia usar nas bandas em que já toquei. Então, a princípio, queria algo mais folk e acústico, comprei um violão elétrico e chamei o Lucas que tava parado. E começamos a ensaiar”, afirma.

Amandla sempre foi compositora, desde criança e também participou de várias bandas ao longo de sua carreira como música, jornalista e fotógrafa. Foi baixista na Kaspar House e Autoboneco, que também tive oportunidade de conhecer em 2012. Porém, como tem vocação para o experimentalismo, coisa que fica evidente em todas as faixas do CD de lançamento da La Burca, Amandla precisava mudar. 

“Eu estava cansada da pegada noise em que persistia e queria outro lance, encarar o violão. Sempre toquei baixo nas bandas, e embora adore tocar as quatro cordas, estava na hora de assumir meu lado compositora-violeira.” Com composições em inglês e português, o CD é bastante redondo, trazendo também variações melódicas entre uma faixa e outra, coisa muito difícil quando a gente pensa no mundo repleto de indie music de hoje. Pensando em mesclar “o lado mais visceral e mais calmo das canções” e o minimalismo que as composições exigiam, a La Burca é um duo intimista até e talvez daí, o entrosamento marcado entre Lucas e Amandla no palco em tão pouco tempo de estrada juntos.


Com mais um álbum em andamento, o duo agora aposta numa setlist mais variada, com canções antes guardadas e que agora estão sendo testadas, experimentadas nos shows. A previsão é que até o fim do ano saia o novo CD, mas a certeza é que muito em breve o clipe da música instrumental “Diário de uma sombra” já esteja no ar. Tocando mais pra fora do que dentro da cidade de Bauru, a La Burca já está fazendo o seu público e conquistando outros! Em agosto, o duo vai abrir os shows da banda espanhola de pós-punk Belgrado, em São Carlos. 

Amandla e Lucas estão consolidando seu caminho com o seu duo de nome e estilo diferentes, enigmáticos e enérgicos. E se ficou com gostinho, não precisa se preocupar, eles vão tocar no Arraiá das Mina no dia 20 deste mês, mas você pode ouvir o CD completo da La Burca, acessando o perfil no TNT.Art aqui, pelo canal do Youtube ou acompanhar o duo pelo Facebook!
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Pé Na Estrada Copa do Mundo: Itaquerón?

4 de julho de 2014
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O dia em que o Itaquerão virou Itaquerón!

Texto e Imagens: Fernando Martins
*Especial Pé na Estrada Copa do Mundo no Brasil

Pouco antes das 11 horas da manhã, entrava no metrô, estação Tucuruvi, e assim começaria o dia em que vi o estádio de um dos maiores clubes do Brasil se tornar uma verdadeira cancha argentina. Era primeiro de julho, Argentina e Suíça pelas oitavas de final da Copa do Mundo.

Ali, de dentro do vagão que percorria a linha azul, algumas camisas azuis e brancas já apareciam, quase todas com o número 10 às costas, seja acompanhada do nome do atual ídolo Messi ou então do eterno Pibe, Diego Maradona. Na baldeação para a linha vermelha, o número de torcedores já crescia, mas ainda assim era pequeno, até menor que o número de chilenos que vi na partida entre Chile e Holanda, também na Arena Corinthians.

Porém, quando o trem parou na estação Arthur Alvim, destinada aos torcedores que entrariam ao jogo pelo portão oeste, o cenário já era bem diferente, completamente entupido. Fácil notar que algo diferente estava acontecendo. Andar mesmo só em blocos, sendo empurrado por trás e, automaticamente, empurrando o da frente. Como cheguei cedo, umas 11h30 mais ou menos, as arquibancadas ainda estavam vazias, mas uma hora depois percebi que já não estava mais em solo brasileiro

“Puedes tirar una foto?” “Permiso, permiso, deja-me pasar”

Logo, claro, os primeiros gritos de apoio à seleção argentina eram ouvidos. Mais do que óbvio também, as belas e variadas canções eram ensaiadas e tomavam forma. O hit “Brasil decime que se siente” não poderia ficar de fora e a cada repetição era entoado com ainda mais força:

“Brasil, decime que se siente/ Tener en casa a tu papá/ Te juro que aunque pasen los años/ Nunca nos vamos a olvidar/ Que Diego los gambeteó/ Que Cani los vacunó/ Están llorando desde Itália hasta hoy/ A Messi lo vas a ver/ La Copa nos va a traer/ Maradona es más grande que Pelé”.

O hino, como sempre muito esperado, também foi mais uma demonstração da superioridade argentina na arquibancada. Mesmo com a versão apenas melódica, o hino foi acompanhado pelos milhares de hermanos presentes. ¡Que suena hermoso!

O jogo estava pra começar e como eu estava em um setor diferente de um amigo que me acompanhava, resolvemos procurar dois lugares juntos, bem atrás do gol onde a Suíça começou atacando. Uma tentativa, duas, três e quatro. Nada. Em nenhum dos assentos conseguimos permanecer por mais de 5 minutos, algo completamente diferente dos outros dois jogos que eu tinha assistido nesse mesmo local (Chile x Holanda e Coréia x Bélgica). Foi a primeira percepção de que desta vez as arquibancadas estavam realmente lotadas. Ninguém quis perder esse jogo. Ótima decisão, por sinal.

Acabamos mesmo ficando na escada que separava os blocos de cadeiras, centralizado ao gol, algo completamente proibido e controlado nas partidas anteriores. Desta vez foi diferente, os monitores tentaram, mas por pouco tempo. Logo perceberam que retirar os torcedores do local improvisado seria impossível. As escadas viraram também arquibancada e a função daqueles degraus não era mais para se locomover, e sim para torcer.

¡Hermanos aburridos*!
Com o início do jogo e muita cantoria dos argentinos, rapidamente começaram as provocações entre os hínchas argentinos e os adeptos brasileiros. Imediatamente foi possível ver que aquela escada, nossa arquibancada adaptada, era o que separava um bloco quase todo argentino de um bloco quase todo brasileiro. Estávamos exatamente no meio daquela que poderia ser uma verdadeira batalha. A tensão tomou conta de nossos corpos. Ver o jogo em meio a todo esse clima era quase um detalhe.

A dúvida pairava: pender pro lado azul e branco ou pro lado verde e amarelo? A maioria era azul e branca, eles estavam ali para torcer por sua seleção, enquanto os brasileiros, mais afim de provocar, torcendo para a Suíça. Em poucos minutos, já estava praticando meu portunhol, fazendo amizade com alguns argentinos e gritando com força os cantos portenhos. Resolvi, assim como o estádio do Corinthians, me tornar, por um dia, um argentino.

Até ídolo já tinha. Um pouco mais atrás de mim, muitos torcedores tiravam uma “selfie” ao seu lado e o cumprimentavam. Era Burruchaga, herói argentino da Copa de 86, que marcou o gol do segundo título mundial de los hermanos. O zero se manteve durante os 90 minutos, partida nervosa. Muitos já se encontravam alterados pela enorme quantidade de álcool vendida em copos personalizados. Prorrogação. Tensão. Emoção. Cada vez mais a provocação aumentava. De um lado, os cantos argentinos provocavam os brasileiros, eram pelo menos três músicas que faziam referência a brasileiros. Do outro, a tentativa era de lembrar os rivais de que somos pentacampões, que Maradona no és más grande que Pelé ou ainda apenas xingá-los, tentando rebater a qualquer custo o canto carregado de sotaque dos argentinos.

Primeiro tempo da prorrogação muito truncado, nada aconteceu. O segundo tempo seguia pelo mesmo caminho, em direção através das penalidades. A Argentina jogava melhor, enquanto a Suíça, aparentemente sentindo o calor forte que cobria quase todo o gramado, já não ameaçava. Naquele momento, nossa preocupação já era em qual gol as cobranças de pênalti seriam executadas. 

Inocente engano, Messi ainda não tinha brilhado. A história albiceleste neste mundial conta que em todo fim de jogo, a estrela aparece. Não foi diferente. Aos 13 minutos do segundo tempo da prorrogação, Messi, assim como Maradona em 86, desferiu passe preciso para Di Maria, que assim como Burruchaga, braço direito de Maradona naquele mundial, marcou o tão esperado gol que garantiria a classificação para as quartas de final da Copa do Mundo. Outro jogaço no Mané Garrincha, com certeza!


Naquela estreita escada, que dividia argentinos e brasileiros, antes mesmo de gritar gol, fomos arremessados com força pela torcida argentina. Naquele momento, não dá pra negar, foi fácil sentir o medo. Um grande empurra-empurra, alguns torcedores se abraçavam, outros se empurravam e, bêbados ou extremamente envolvidos pelo emocional da partida e das provocações, corriam pra cima dos brasileiros. Quase todos os corrimões que serviam de apoio já haviam sido quebrados e pareciam à espera do primeiro maluco que os arremessaria contra a torcida rival. A tensão era muito grande. Parecia prestes a brotar uma grande batalha entre torcedores. E o front de guerra seria ali, naquela estreita escada onde estávamos.

Um minuto depois do gol, enquanto tentávamos nos recuperar dos empurrões, controlar os mais exaltados e encontrar novamente o lugar antes ocupado, alguns brasileiros saíram na porrada. Porrada de verdade, com muitos socos e chutes, eram uns 4 ou 5 que entraram na briga, sendo uma mulher, que, depois de derrubada, ainda distribuiu pesadas em quem se aproximava. Rostos inchados e algum sangue espirrado em uma das camisas amarelas. Disso para virar uma batalha generalizada faltava pouco. Mas, felizmente, logo os brigões foram separados pelos próprios companheiros.

O clima tenso, que já era ruim, ficou muito pior. Os argentinos não paravam de provocar e iam, aos poucos, tomando o lugar dos brasileiros, que acuados com a briga anterior, foram se retirando. Não havia mais um bloco majoritariamente brasileiro. Os que resistiram, eram encarados de frente por argentinos que esticavam suas camisas e bandeiras, de costas para o campo, e provocavam os anfitriões da festa, agora donos de mais um bloco da arquibancada. Praticamente nem viram a bola suíça batendo na trave, em cabeçada de Dzemaili, de dentro da pequena área, que voltou em seu próprio joelho e saiu, centímetros do gol de Romero. Depois dessa, quem se importa? Se não entrou nessa, não entra mais. Logo o apito era soado, partida encerrada e classificação dos hermanos para as quartas de final, que mais tarde descobririam que seu adversário será a Bélgica, no próximo sábado, 5 de julho.

Fernando e Heitor Facini, torcedores albicelestes por um dia
A Arena que visitei, localizada no bairro de Itaquera, região com maior número de corinthianos da cidade de São Paulo, já não era mais brasileira, não naquele momento. Os argentinos tomaram a festa e pareciam estar em casa, naquele estádio grandioso que, pelo menos durante o dia 01 de julho de 2014, poderia ganhar o apelido de “Itaquerón”.

*aburridos: chateados (em espanhol)


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O Rei Ubu

9 de junho de 2014
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Texto por Pâmela Antunes
Fotos por Julia Gottschalk


No último domingo (08), o Parque Vitória Régia, foi palco do espetáculo Ubu Rei. Realizado pela Cia Teatral Boccaccione, de Ribeiro Preto. A vinda até Bauru está dentro do projeto ‘UBU REI – A rua como espaço cênico e de formação artística’ e contou com a parceria do grupo Protótipo Tópico da cidade.

A oficina

Antes do espetáculo a Cia Teatral Boccaccione ministrou uma oficina onde os participantes integraram o elenco da peça. A oficina começou por voltas das 15h15, e contou com a participação de quinze pessoas. Quem iniciou a atividade foi o ator João Paulo, fazendo um circulo onde cada integrante da oficina se apresentou e contou se já tinha alguma experiência com artes cênicas e peças de teatro. Logo após foi feita uma dinâmica chamada de jogo do bastão, para descontrair e tirar a timidez, a dinâmica funcionava da seguinte maneira: quem estivesse no centro da circulo com bastão estava no comando e tinha que passar o bastão para outra pessoa ocupar o lugar. Ao decorrer da atividade o ritmo foi mudando e era acrescentada mais alguma ação, como o movimento do corpo. Dando continuidade foi feito um aquecimento vocal conduzida pelo ator Marcelo que também, ensinou a letra de uma música que foi usada na peça. Seguindo com a oficina, João Paulo contou o enredo da peça, e explicou como ia funcionar a participação dos integrantes. Os quinze participantes foram divididos em dois grupos e cada um ficou com um ator que instruiu como ia ser atuação e colaboração de cada.
A oficina teve duração de duas horas e foi ministrada com muito bom humor e domínio. O intuito da oficina é mesclar atores e não-atores possibilitando a interação do público com a peça.

O espetáculo

A peça Ubu Rei acontece “Em qualquer lugar” e tem como personagem principal o Pai Ubu: um burguês ridículo e excêntrico que é empregado de Venceslas o Rei de “O Lugar”. Ubu influenciado por sua esposa Mãe Ubu mulher ambiciosa, decide se apoderar do trono do Rei e tem apoio do Capitão Bordure e de seu exército. Após matar o Rei, Ubu toma posse do trono e mostra-se malvado, grosseiro, com um pensamento político absurdo. Perante essa situação o príncipe Bougrelas herdeiro do falecido Venceslas reúne forçar no ódio que sente e na insatisfação do povo para tomar posse da coroa que lhe é de direito. Sem outra solução Pai Ubu, foge com a mesma personalidade mesquinha. O texto de Alfred Jarry traz crítica política com muito humor e inteligência. Com duração de uma hora a adaptação feita pela Cia Teatral Boccaccione é envolvente e divertida. A apresentação que teve início por volta das 17h15, em poucos minutos chamou a atenção das pessoas que estavam no parque que logo foram se aproximando para assistir a peça.

Como clássico teatro de rua, a participação do público foi intensa e essencial. Com um cenário simples com apenas um andaime, as passagem de um lugar para o outro era marcada por uma placa de identificação, fazendo o público soltar a imaginação. A peça também contou com o repertório musical de alta qualidade onde as músicas foram executadas ao vivo aproximando mais ainda plateia da apresentação. Os participantes da oficina não deixaram a desejar fizeram bonito e contribuíram para o desenvolvimento do espetáculo. Com um texto aberto que teve vários improvisos a encenação de Ubu Rei tirou várias gargalhas e deixou o domingo dos bauruenses que passaram pelo Parque Vitória Régia mais divertido.  A apresentação foi finalizada com agradecimentos e a tradicional passagem de chapéu que não pode faltar nos teatros de rua.

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Umbanda é Brasil (e é religião sim!)

3 de junho de 2014
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Documentário feito por estudantes de jornalismo da Unesp é uma experiência viva com a religião

Por Mariana Caires
Imagem: Caterina Obeid/Portal ESPM

No fim de abril, a revelação do Juiz Eugênio Rosa de Araújo de que Umbanda e Candomblé não eram religiões causou grande revolta em parte da população brasileira. A declaração de que “manifestações religiosas afro-brasileiros não se constituem religião” foi uma resposta contra a ação na justiça que pedia pela retirada de vídeos considerados ofensivos para o Candomblé.

No dia 20 de maio, após as muitas manifestações populares contra sua fala, o Juiz da 17ª Vara de Fazenda Federal do Rio de Janeiro voltou atrás na sua decisão, dizendo que “o forte apoio dado pela mídia e pela sociedade civil, demonstra, por si só, e de forma inquestionável, a crença no culto de tais religiões”. Apesar da nova declaração, os vídeos que difamam as religiões de origem africana continuam no ar.

Em meio a essa declaração infeliz do juiz, cabe lembrar de um trabalho feito no começo do ano por estudantes de jornalismo da Unesp para a disciplina de Telejornalismo II, com o apoio do Professor Denis Porto Renó. O documentário Umbanda é Brasil revela a vivência que o grupo teve com a religião da Umbanda durante um dia normal de culto (chamado de Gira) e também conta com falas de dois especialistas da Umbanda: Rodrigo Queiroz, que é sacerdote umbandista e o antropólogo Cláudio Bertolli. Essa união de opiniões forma um enredo bem completo.

O objetivo do grupo com o documentário foi desmistificar olhares preconceituosos em relação à Umbanda, suas práticas religiosas e seus praticantes. As quase 30 mil pessoas que visualizaram o doc. (até o momento) também viram dados sobre o processo de formação da religião e conheceram de perto partes dos seus ritos. 

O documentário é um exemplo de Jornalismo Gonzo, modalidade onde os jornalistas experenciam a temática da reportagem e levam suas sensações ao público. Jayme Rosica conta que “a escolha pelo gonzo acho que se deve justamente pelo fato de que a maior parte do grupo nunca havia frequentado”. Então, “a ideia era de mostrar ao público a descoberta dos personagens sobre o que realmente é a umbanda”, afirma. 





Os estudantes vivenciaram inclusive a conversa com o sacerdote durante a cerimônia e cada um comenta sua experiência no próprio vídeo

Nos 26 minutos de documentário, o destaque fica com os momentos em que podemos experenciar a cerimônia do olhar de quem estava filmando. Gabriel Cortez explica que ”por ser o primeiro contato com a Umbanda, foi sim um pouco difícil nos primeiros momentos entender alguns “costumes” que todos que frequentam a mais tempo já sabem. No fim, o pessoal do ICA nos deixou bem à vontade, e fomos percebendo até onde podíamos ir.”

A curiosidade dos repórteres envolve quem assiste o material. Perguntado sobre como foi a filmagem, Gabriel Cortez disse que “Foi uma primeira experiência bem interessante. Pudemos circular livremente com a câmera por todo o terreiro enquanto rolavam os trabalhos. Todo mundo filmou um pouco. E, enquanto um estava filmando, outro estava sendo atendido ou esperando sua vez.” 

A maior dificuldade na produção do documentário foi transformar as quatro horas de material bruto (tudo o que filmaram) em pouco mais de 25 minutos. Para quem está pensando em produzir um doc, vale saber como eles se organizaram na edição: eles decuparam (cortaram) tudo em vídeos curtos de cerca de cinco minutos. A partir disso, foram escolhendo o que valia a pena utilizar. Foram seis tardes de edição no laboratório da Unesp e ao todo, foi cerca de um mês para produzir o doc. 

Agora chega de falar tanto, que é hora de assistir o brilhante material que esses estudantes produziram e já está no ar! Antes disso, só fica o incentivo do Gabriel para quem pensa ter um doc para chamar de seu: “Olha, é um trampo grandinho. Mas, ao mesmo tempo, muito prazeroso! E que acrescentou muito, pelo menos para mim, tanto como pessoa, quanto como jornalista”.




Umbanda é Brasil, um documentário de 
Gabriel Cortez
Maitê Borges
Jayme Rosca
Solon Neto
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Light Stencil: Impressão nas imagens, imagens de impressão

2 de junho de 2014
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Light Stencil, Paulo Brazyl

Texto e Imagens: Keytyane Medeiros


Na Virada Cultural Paulista 2014, os eventos estavam bastante espalhados pelo SESC, pelo Teatro Municipal e pelo Vitória Régia, é claro. Uma das características da Virada Paulista em Bauru é que ela efetivamente, não vira. Isto é, não vira a noite com vários eventos culturais distribuídos pela cidade e não é por falta de espaço adequado, mas talvez, por falta de público.

Não que o bauruense não compareça aos eventos culturais, mas alguns quase sempre estão menos ocupados do que deveriam. Um exemplo bastante claro foi a performance de Light Stencil no Teatro Municipal, neste sábado a noite, 31 de maio, com a presença do fotógrafo Paulo Brazyl.


O fotógrafo, premiado em projetos pela Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, levou aos expectadores da noite, uma mostra de seus trabalhos com Light Stencil. A técnica, criada pelo francês Fabrice Witter em 2012, consiste em deixar a câmera com longa exposição, de 30 a 45 segundos, num cenário noturno, e em frente à câmera, posicionar uma prancha vazada com uma imagem que vai ser projetada por um flash de luz na fotografia, registrando assim, tanto o cenário noturno, quanto à imagem da prancha.

Paulo ainda conversou com os participantes, deu detalhes de como funciona a técnica, quais as dificuldades encontradas por ele para registrar projeções em paisagens mais conturbadas, como não aparecer os movimentos do fotógrafo, entre outros. Após a mostra, vários aspirantes e entusiastas da fotografia ainda conversaram com Paulo Brazyl e tiraram dúvidas sobre outros procedimentos. A promessa de uma das produtoras da Virada Cultural e representante do Teatro Municipal é trazer Brazyl para ministrar uma oficina de Light Stencil no segundo semestre. Estaremos aguardando para aprender mais sobre essa impressionante e bela técnica de fotografia. A projeção de uma imagem, a concretização de símbolos não reais em fotografias palpáveis. Impressionante ;)


Para ver imagens de Light Stencil, clique aqui
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Um olhar além das aparências

1 de junho de 2014
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Texto e imagens: Nathalia Rocha

Seminário “Contra a Redução da Maioridade Penal” realizado neste sábado em Bauru se propõe a questionar a ideia de violência e a forma como ela é construída

Um dos marcos do meu processo de amadurecimento, de passagem da adolescência para a fase adulta, foi a percepção de que meus pais queriam o melhor para mim. Isso não impede que ainda tenhamos algumas discussões de cunho político e ideológico, mas fez com que eu compreendesse que, ainda que eu não concorde com algumas decisões e argumentos deles no que diz que respeito à minha criação, as intenções deles são estruturadas a partir de um amor imensurável. E quando não há, na criação e processo de construção da personalidade e do caráter se um indivíduo, então, uma base que o leve a tal compreensão? E quando a estrutura familiar não lhe permite chegar à mesma conclusão a que cheguei?

O Seminário “Contra a Redução da Maioridade Penal”, realizado no dia 31 de maio na Câmara Municipal de Bauru, se propôs a entender essas questões. Sair da zona de conforto e entender que problemas como a violência vão além da visão linear “ação e reação”.

“Para todo problema complexo existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada.”
Juliana Pasqualini

Foi com a ideia do jornalista e crítico social norte-americano Henry Louis Mencken que Juliana Pasqualini, professora do Departamento de Psicologia da Unesp Bauru, introduziu sua reflexão sobre o significado da adolescência. Segundo a professora, entender o equívoco da ideia de redução da maioridade penal envolve um olhar além das aparências, um olhar que permita à sociedade enxergar o que está por trás dos crimes cometidos por menores infratores. Indo além da visão de que a adolescência é um conceito biológico e tomando o período, também, como uma construção social e histórica, o jovem nessa fase tenderia a questionar seu papel no mundo e a projetar o seu futuro a partir desse. A partir disso, Juliana questiona o suporte que jovens infratores, majoritariamente sem base familiar e educacional, tem nesse processo de projeção e planejamento de futuro.

Usando uma linha de combate diferente, a deputada estadual Beth Sahão usou dados para desconstruir alguns dos argumentos usados na defesa da redução da maioridade penal. Segundo o Mapa da Violência 2012, o Brasil é o quarto colocado, entre 92 países, na taxa de homicídios de crianças e adolescentes. Olhando apenas para o nosso país: 129 casos de violência física ou psicológica são registrados pelo Disque-Denúncia diariamente. Dentre os menores infratores, segundo dados levantados pelo Conselho Nacional de Justiça, a maioria parou de estudar aos 14 anos.

A deputada colocou, ainda, a problemática da falta de investimentos na implantação e aplicação de políticas capazes de apoiar esses jovens. Beth Sahão diz que, além de enfrentar a falta de interessa polítco em se criar políticas que subsidiem a formação de jovens carentes, ela tem como problema também a falta de recursos que tornem possível a criação de leis e dispositivos capazes de defender esses indivíduos.

“Reduzir a maioridade penal é reconhecer a falência do Estado no trato da criança e do adolescente”

Além da deputada Beth Sahão e da professora e psicóloga Juliana Pasqualini, o seminário também contou com a presença do advogado e rmembro do Conselho Estadual da Criança e do Adolescente (Condeca) Ariel de Castro Alves, responsável pela conclusão sobre a falha do Estado, e que levantou a questão da inconstitucionalidade da maioridade penal. E com Givanildo Manoel da Silva, educador social e especialista em políticas destinadas a infanto-juventude.

Givanildo, o Giva, propos um olhar mais amplo da sociedade brasileira, de modo que mais que o combate à redução da maioridade penal, avaliássemos os danos da construção sociedade baseada no encarceramento e na punição baseada na tolerância zero.

O seminário foi organizado pelo Comitê Contra a Redução da Maioridade de Bauru e contou com a participação de diversas entidades e movimentos sociais atuantes na cidade.

Andamento da discussão no país

Segundo pesquisa realizada pela Confederação Nacional do Transporte em 2013, 92,7% da população é favorável à redução da maioridade penal. Em fevereiro deste ano, a proposta do senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) de redução da idade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos foi rejeitada pela Comissão de Constituição e Justiça. O senador apresentou recurso à Mesa Diretora do Senado para que sua proposta de emenda à Constituição (PEC) seja apreciada pelo plenário da Casa. Aloysio recolheu as nove assinaturas necessárias para que a PEC seja analisada pelo pleno dos senadores. Com isso, a proposição entrará na pauta de votações.
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#Trocando Ideia: D'Bronx

29 de maio de 2014
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Entrevista: Keytyane Medeiros

Imagens: Divulgação

Rodrigo Caetano Faustino, mais conhecido pelas quebradas de Bauru como D’Bronx, é rapper e produtor audiovisual. Em outubro de 2013 lançou seu quinto CD, intitulado “Coragem é o que a vida quer de mim” e no início do ano participou da produção e da realização do clipe “Favela” do rapper Vurto MC, também bauruense.

O CD de D’Bronx é bastante mesclado. Tem levadas mais R&B, como “Já te amava” que conta com a participação de Thigor MC, outras canções que referenciam jargões próprios do rap paulista como em “Interior tem voz”, produzido por Felipe Canela e outras mais étnicas como “Posse sangrenta”, feita em homenagem aos índios Guarani Kaiowá e que já está na boca do povo. Nossa equipe conversou com o cara saber qual que é a do novo trabalho.

e-Colab: D’Bronx, como começou a sua relação com o rap, quando começou a ouvir, cantar, produzir?
D’Bronx: Eu faço rap desde criança. Meu tio era DJ e meu primeiro contato com a música foi com o samba, mas como meu tio era DJ, ele me apresentou um CD do Racionais MCs (Homem na Estrada) e aí eu comecei a escutar bastante rap. E eu comecei a relatar, com as minhas palavras, algumas coisas que aconteciam na minha quebrada e comecei a montar meus grupos ali, sem muita pretensão, só para cantar em escola e praças mesmo. Montei meu primeiro grupo entre 2002 e 2003 e em 2005, eu lancei o primeiro CD. O meu primeiro grupo chamava “Sobreviventes do Gueto” e o segundo chamava “Guerreiros da Luz”. Nesse último éramos em 5 integrantes e começamos a misturar rap com soul, colocar um pouco mais de musicalidade na parada. Tivemos ajuda do produtor Kleber Gaudencio, que toca piano e foi aí que nosso estilo começou a se diferenciar do rap que se faz aqui em Bauru.

e-Colab:  Quais as influências musicais para compor o CD “Coragem é o que a vida quer de mim”, já que ele possui várias texturas sonoras?
D’Bronx: Eu trabalho com diversas pessoas e essas pessoas me influenciam com samba, jazz, soul. E eu procuro respeitar todos esses estilos e extrair um pouco de todos eles. Não escuto rap o dia todo, pelo contrário, rap é o que eu menos ouço no meu dia a dia. E cada CD que eu lancei, tinha uma linhagem diferente. Uns mais pro lado do soul, do rap mesmo, com mais beats, mas sempre procurando enriquecer o trabalho e refletir aquilo que eu escuto no dia a dia também.



e-Colab: Como foi o processo de produção desse último CD?
D'Bronx: Nesse CD, eu escolhi alguns amigos que também são produtores para me ajudar. Cada faixa vem com uma produção de uma pessoa diferente, tem o Caio Santos, o Rodrigo Dhakor, Thigor MC, TH Beats. Então cada faixa um coloquei de um parceiro ali, então não segue uma linha só de produção. Foi um lance que eu experimentei fazer mais rap, com uns beats mais pesados. Mas a ideia era explorar outras coisas, um beat mais pegada jazz, música em homenagem aos índios Guarani-Kaiowa, com uns batuques mais étnicos, outros com beats mais pesados, como a música que o Canela fez...

e-Colab: Qual seria a principal mensagem do CD?        (Ouça o CD completo aqui!)
D'Bronx: Eu trabalho bastante com a questão da auto-estima. Eu penso que não adianta eu atacar o sistema sem estar bem comigo mesmo. Não adianta eu criticar a polícia, a violência e a sociedade, sendo que eu ainda não me valorizei como pessoa ainda, não to bem em casa, com a família, com a vizinhança antes. Tento passar uma mensagem positiva, de esperança, de respeito, sem fazer distinção de raça, religião, estilo musical. Por isso, a necessidade de fazer parceria com outros rappers e outros cantores. Às vezes a pessoa curte um jazz, mas não ouve rap, aí no rap vê um lance de jazz. A ideia é essa, trabalhar com autoestima e respeito, é o que me motiva mais. Porque não adianta instigar o ódio entre as pessoas. Não é porque eu não falo sobre crime ou revolução que meu rap é melhor ou pior que o de outro rapper, mas a gente se complementa, ele pode falar coisas que eu não cito e vice-versa. Uma coisa complementa a outra, nós não vivemos violência o tempo todo, a gente desfruta de felicidade, alegria, a gente luta por isso e todo mundo se complementa.


O rapper também é dono de uma produtora audiovisual, a Bronx Filmes. A história de D’Bronx com o audiovisual começou quando Rodrigo trabalhava na ONG SOS Global e prestava socorro para vítimas de catástrofes naturais em outros estados e, ao perceber uma ausência de vídeos sobre esses acidentes, decidiu que ele mesmo faria registros dos resgates e das famílias atingidas. Assim que produziu os primeiros vídeos, ainda com uma câmera compacta simples, D’Bronx recebeu ajuda do amigo e coordenador da ONG, Enilson Comono, com alguns equipamentos e passou a direcionar as produções para trabalhos musicais, em clipes dele próprio, da Abanka Forte, de Vurto e também para grupos de São José do Rio Preto.

A proposta de D’Bronx parece interessante à medida que se propõe a criar um ambiente de boas energias e autoestima para o ouvinte de rap, deixá-lo mais confiante e seguro de si. Nesse ponto, sem dúvidas, D’Bronx acerta. É realmente importante se conhecer bem, enquanto individuo para também se reconhecer cidadão, ser político, cultural e social nesses nossos tempos líquidos.
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É o Rap: Gangsta Paradise em Bauru!

27 de maio de 2014
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Texto: John Cristian
Imagens: Lucas Jordão

Neste sábado, dia 24 de maio, Bauru foi palco para grandes nomes do Rap Nacional, como Ndee Naldinho, Realidade Cruel, Consciência X Atual e Consciência Humana

Nas pickups estava o DJ Bola 8 (Realidade Cruel) tocando várias lendas do Rap Nacional. Também participaram da festa vários grupos do interior paulista como Abanka Forte, que é da casa, QOES de Penápolis, Expresso Verdade de Marília, Mr. Giba e X da Questão de Sorocaba e lá de Três Corações, Minas Gerais, veio o grupo M.Niggaz.

É o Gangsta Paradise!!! 

Nossa equipe procurou conversar com alguns grupos que se apresentaram nesta que é a 9º edição do evento para sacar o que aconteceu por lá.

“Tem que ter compromisso e seriedade no bagulho, se for pra somar, é nois memo vagabundo” 

M. Niggaz (3 Corações - MG)
M.Niggaz abriu o evento, com bastante presença de palco, chamando a atenção e mostrando que o pessoal de Minas não veio para brincadeira: trouxe letras fortes e positivas. O grupo, que está desde 1996 no movimento Hip Hop, nã tinha se apresentado em Bauru ainda, e pelo que disseram, gostaram muito da recepção da cidade. Perguntamos para Romilson, integrante do grupo, como o Rap mudou na sua vida. “Se eu não tivesse me envolvido nesse movimento, com certeza eu não tava aqui hoje, eu tava pro outro lado metendo o louco... Ou tava preso, ou tava morto”, respondeu. Já QOES, de Penapólis, roubou a cena com estilo. Entrou no palco com máscaras de palhaço, toucas como assaltantes, tacos de beisebol e lenços tampando boa parte do rosto. Visual completamente agressivo, deixando todos surpresos ao cantar músicas que falam sobre Deus e paz. As aparências enganam! Segundo um dos membros do grupo, Jefferson, “o visual mostra a visão que o pessoal de fora [do rap] tem do rap. Na letra a pessoa vai entender que o rap não é aquilo que ela pensa. Esse é o verdadeiro rap gangsta, mostrar pra molecada os dois lados, o que vai e o que não vai acontecer, e não passar as caminhadas erradas.” 


“Inspiração pra um rap a cada metro quadrado” 
Consciência X Atual

Abanka Forte, único grupo bauruense a se apresentar na noite, existe há menos de um ano e é formada por Thiago de Tarcius e Vinicius Thomas nos microfones, além do DJ Ding nas pickups. Os caras da Abanka também rodaram todas as quebradas de Bauru colando cartazes e falando com a galera sobre o evento, além de vender ingressos e divulgar nas redes sociais. Como recompensa de todo o suor gasto, o grupo prestigiou a Casa Muamba Music cheia. 


Sempre com muita humildade, os integrantes de Abanka nos responderam algumas perguntas: 

E-colab: Qual a sensação de dividir palco com Realidade Cruel, Ndee e todos os outros em um evento desse porte? 

Abanka: Tem grande importância, desde pivete ouvindo os cara no radinho da sua casa, e hoje com internet da pra ver uns clipes e documentários também, só que a gente não sabe a verdade. Hoje estamos tendo oportunidade de olhar no olho dos caras e conhecer qual é a pessoa deles. Só temos a agradecer pela festa e pela oportunidade 

E-colab: Em pouco tempo vocês conseguiram um espaço enorme no rap, tem gente que tá há mais tempo e não teve a oportunidade que vocês tiveram hoje. Tem algum conselho para quem tá começando, ou já tá no rap há algum tempo? 

Abanka: Sim, qualquer um é capaz, tem que estar sempre ciente que é só correr e acreditar no seu sonho, independente do que os outros falam, tem que fazer acontecer! 

Douglas (Realidade Cruel)
Falando com os grupos que não são de Bauru, mas que participaram do evento, ficou fácil perceber que Bauru está se destacando cada vez mais no movimento Hip Hop estadual. O próprio DJ Bola 8 (Realidade Cruel) disse que Bauru é “muito louco”. O público do evento está de parabéns, todos em paz, cantando com o coração! Bauru sempre fortalecendo a cena do Rap Nacional, e mostrando para todos que o Rap não incita a violência e criminalidade, pelo contrário. Todos os grupos que se apresentaram citaram Deus, ou no meio do shows ou nas mensagens. Consciência X Atual citou Salmos 23 inteiro durante o show e o próprio Douglas disse que só Jesus Cristo seria a Salvação, e que aprendeu isso tarde, mas aprendeu. 

Pra quem queria ouvir Rap de verdade, não faltou opção no evento. Só monstros do Rap Nacional reunidos em um único lugar, e com certeza, foi um dos maiores eventos de rap que Bauru já teve!


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"Neguinho o caralho, meu nome é Emicida, porra!"

15 de maio de 2014
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Texto: Keytyane Medeiros
Imagens: Pedro Fávero



Mesa de 2 pickups, berimbau e cavaquinho numa quarta-feira a noite. E é noite de show do Emicida no Sesc Bauru. As arquibancadas estavam lotadas de fãs e novos-fãs ansiosos pela apresentação. Foi bonito de ver, tinha gente de todo tipo, desde aqueles que não sabiam cantar mais do que duas músicas, mas se envolviam com as batidas até aqueles que sabiam letras de Xis e DMN, rappers importantes da década de 1990 e que foram incluídos no repertório do cantor do Jd. Fontalis. 

Mas antes de falarmos do Emicida propriamente, temos que falar da banda. Depois de ontem, penso até que poderia ser, daqui pra frente, Emicida e Banda, porque a multiplicidade de instrumentos e suas combinações foi um show à parte. A guitarrista e backing vocal se destacou (ainda mais, já que era a única mulher no palco) quando puxou um som no berimbau, somado aos beats do DJ Nyack e à percussão muito bem delineada ao fundo. Os músicos se entregaram e passaram a energia de samba, rap e africa-brasilidades para o público. Isso me lembra que em 2013, Emicida deu uma entrevista à Noize em que dizia que estava experimentando novas texturas, novos ritmos e a escolha por uma banda tão eclética e alinhada, prova que essa experimentação tem dado certo. 

Emicida a todo tempo puxava o público e pedia por sua participação. Ao cantar “Triunfo” numa versão diferente da original, surpreendeu e trouxe a vibe de show de rap pro Sesc. A partir daí, foi “Rua Augusta”, “Eu gosto dela”, “Emicidio” e tantos outros sucessos dos EPs anteriores tomando conta da quadra. Mas foi o primeiro álbum oficial do rapper, “O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui” a grande estrela do show. “Hino Vira-Lata”, “Bang!” e “Hoje Cedo” estavam na boca do povo, mostrando que o rap ultrapassou, ao longo dos últimos anos, barreiras até mesmo históricas de preconceito com o gênero. 

“Axé pra quem é de axé, pra chegar bem vilão, independente da sua fé, música é nossa religião”. Essa foi Ubuntu Fristilli, música que reproduz e amplia o que o africano Desmond Tutu já definiu como filosofia Ubuntu: “uma pessoa com ubuntu está aberta e disponível aos outros, não-preocupada em julgar os outros como bons ou maus, e tem consciência de que faz parte de algo maior e que é tão diminuída quanto seus semelhantes que são diminuídos ou humilhados, torturados ou oprimidos.” 

No meio do show, Emicida convidou Renan Inquérito ao palco e mais uma vez, o MC de Campinas começou a vender pó, pó-esia até não sair mais do palco. Ficou ali, compondo o show, recitando e cantando vários sucessos do rap nacional junto à Emicida: Sabotage, DMN, Doctors Mc, Xis. Estouro. 



Quem acompanha o movimento Hip Hop sabe que, em quase todos os shows de rap, existe um momento Freestyle. Rappers são rimadores convictos, às vezes mandam bem, às vezes mandam mal, mas esse momento é sagrado para um MC e para os fãs de rap. Ontem não foi diferente, ainda mais pra Emicida, cria da Rinha dos MCs da Santa Cruz e de tantas outras das periferias de São Paulo. Só com os beats do DJ Nyack, Emicida convidou Coruja BC1, expoente do rap bauruense, para mandar umas rimas e tocar corações. Senti o chão tremer quando o Corujinha da Rima subiu ao palco, sempre reforçando a ideia de que “se o interior tem voz, o mundo vai ter que ouvir”.

Pois é, o Sesc e toda uma diversidade de bauruenses ouviu. Ouviram a homenagem de Emicida ao mestre Jair Rodrigues, ouviram uma aula de rap nacional, de cultura e identidade negra e periférica. Ouviram de amor e de rinha. De pertencimento e orgulho. Ouviram pó e do chão, fortaleceram o Hip Hop com suas vozes e com seu coração.



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Triunfo no Ponto - Lançamento do livro

12 de maio de 2014
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Gilberto Yoshinaga, autor do livro "Nelson Triunfo: do Sertão ao Hip Hop"


Texto: Keytyane Medeiros
Imagens: Keytyane Medeiros e Felipe Amaral
Major, do Bauru Breakers Crew

Dia das mães, dia de Rap no Ponto.
Coração aperta e se divide. A vontade de voltar para a minha quebrada, pro colo da mãe é grande, mas a vontade de ficar, fortalecer as atividades do Ponto de Cultura Acesso Hip Hop e conhecer o autor da biografia de Nelson Triunfo também é.

Por fim, escolhi ficar em Bauru e comparecer à Cussy Jr, 13-55, local que está sendo ressignificado a cada dia, a cada atividade e já tem se tornado o ponto de encontro de vários grupos e movimentos orgânicos da cidade, relacionados ao Hip Hop, à cultura negra e à discussão política entre os jovens.

Ontem, 11 de maio, foi o dia do lançamento do livro biografia “Nelson Triunfo: Do Sertão ao Hip Hop” de Gilberto Yoshinaga aqui em Bauru. Gilberto é jornalista, formado pela Unesp e passou 5 anos pesquisando e acompanhando Nelson Triunfo em viagens e eventos de hip hop, ou não, como ele mesmo pontua.

“Desde 97, época em que eu morei e estudei aqui em Bauru, eu já vinha acumulando várias informações sobre Hip Hop e queria usar esse material, mas eu achava muito amplo um livro sobre Hip Hop, eu queria um enfoque mais específico. Por incrível que pareça, eu sonhei que escrevia a biografia do Nelsão e pensei ‘Que ideia legal! Como ninguém pensou nisso antes¿’ Como a história dele conta automaticamente a história da Soul Music e do Hip Hop no Brasil veio a calhar, porque eu já tinha 15 anos de material [guardado sobre o tema]”, afirma Gilberto.

Nelson Triunfo começou sua carreira como dançarino em 1977 em São Paulo, em plena ditadura militar. Conhecido como “Pai do Hip Hop” no Brasil, foi um dos pioneiros no uso dos estilos, danças, batidas e músicas existentes no movimento como ferramenta de educação em projetos sociais. Além disso, Nelsão também é poeta, músico e ator.

O autor ainda confessa “eu achei que o Nelson tinha uma representatividade mediana dentro do movimento no Brasil, mas quando fui ver, percebi que era gigante a importância dele, muito maior do que eu esperava.”. Yoshinaga também fez questão de que o livro fosse lançado de maneira independente, por meio de sua editora Shuriken Produções (produtora do Zap-san e Mr. Giba, expoentes do rap sorocabano), para que pudesse valorizar o trabalho do autor e do biografado, sem falar do problema das editoras atravessadoras dentro da indústria cultural no país.

Sobre o desentendimento entre Zap-san e Projota, Gilberto lamenta porque, “pra quem não acompanha o movimento Hip Hop fica essa imagem da violência, da agressividade, da coisa negativa e não é nada disso que o Hip Hop prega. A mídia não noticia quando um show dos Racionais salva uma vida, mas quando tem uma briga entre um rapper desconhecido e um mediano, alardeia”.

Show do D'Bronx
Infelizmente, por conta da data, o evento contou com a participação de um número pequeno de ouvintes, mas todos muito atentos e participantes do movimento Hip Hop em Bauru. Gilberto Yoshinaga ainda falou sobre a conduta Hip Hop, que, segundo ele, deve ir além da música e dos beats e se transfere também para a humildade no trato com as pessoas e no "Bom dia" que devemos desejar ao porteiro, ao vendedor de rua, ao rapaz da padaria. Logo após contar alguns causos sobre o livro, Gilberto sorteou um exemplar com base em algumas perguntas e o ganhador foi o rapper Jota F.

Além do lançamento do livro, houve apresentações de dança com o Bauru Breakers Crew, shows do Dom Black e do D’Bronx, dos iniciantes do Impacto ZL e a presença da Biblioteca Móvel – Quinto Elemento, das meninas da Frente Feminina de Hip Hop. E a promessa do Renato Magu, um dos organizadores do Ponto de Cultura é trazer o próprio Nelson Triunfo no próximo semestre. Vamos esperar!

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Primeiro de maio foi dia de Rock, bebê.

2 de maio de 2014
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Texto: Keytyane Medeiros
Fotos: Keytyane Medeiros e Robinson Oliveira

Primeiro de Maio é um dia de lutas, é o Dia Internacional do Trabalhador. Dia do antigo proletário e hoje assalariado dos grandes centros urbanos. A data é fruto de reivindicações iniciadas em 1886 em Chicago a fim de diminuir a carga horária de trabalho para 8 horas diárias. E na Segunda Internacional Socialista de 1889, em Paris, a data foi aprovada como dia de lutas e conquistas.

Há quem prefira se reunir para discutir as condições laborais em sindicatos e há grupos que preferem comemorar, celebrar a conquista desta data. Independente das críticas anuais, a Central Única de Trabalhadores (CUT) de Bauru, ano após ano, realiza uma festa no Vitória Régia. 

As críticas à CUT são inúmeras e quase sempre pesadas. Mas neste ano, a organização trouxe uma importante pauta para o evento: a democratização da comunicação como o desafio do século. Uma barraca foi montada para recolher assinaturas para a criação de uma Lei de Mídia Democrática e constantemente anunciada no palco. Finalmente, os movimentos sociais não ligados à comunicação perceberam o risco que corremos com a concentração da mídia e tomaram para si mais esta pauta. Ponto positivo.

Jota F e Betin MC. Foto: Robinson Oliveira
Realizado em parceria com a Prefeitura Municipal, a programação do Dia do Trabalho começou às 10h no Vitória Régia e contou com apresentações de teatro e dança. Pela tarde, houve shows do Josiel Rusmont e também o jovem rapper Betin MC, uma das apostas do Ponto de Cultura Acesso Hip Hop.

A partir das 16h30 rolou apresentação do grupo cover de Creedence Clearwater Revival, Midnight Special. O grupo já é conhecido na cidade e é um dos maiores covers da banda no país. Apesar do frio de outono, o Vitória estava cheio e o público se dividiu entre o rock e o samba já que em outro ponto do parque estava rolando um encontro de sambistas da cidade promovido pelo Coletivo Samba.

A partir das 17h30 quem entrou no palco foi André Turco, artista conhecido na cidade. André e seus convidados tocaram músicas conhecidas como “O nosso amor a gente inventa”, do Cazuza e vários outros sucessos do Legião Urbana. Apesar da boa vontade, infelizmente os cantores não tinham tanta presença de palco, o que fez com que o público os acompanhasse, mas não enlouquecesse ao longo das canções.

Às 19h houve o Ato Público promovido pela CUT e o vereador Roque Ferreira (PT) tomou a cena. Inicialmente vaiado pela plateia, Roque falou sobre a luta pela democratização da mídia, sobre melhores investimentos na educação pública, genocídio da população jovem negra como política de “um governo fascista de Geraldo Alckmin” e sobre a redução da maioridade penal. Ao longo do discurso, a reação do público foi mudando e se tornando bastante controversa, ora apoiando as falas ora repudiando-as. Sob aplausos de alguns cidadãos e dos representantes dos professores da APEOSP, Roque deixou o palco e deu lugar aos próximos shows.


Em seguida, veio Kiko Zambianchi cantando sucessos da geração do rock dos anos 80 no Brasil. Sucessos do Legião Urbana, Capital Inicial e até músicas do Black Sabbath. Em seguida, Marcelo Nova empolgou o público – e fico feliz em dizer – não o chocou, moralmente, ao cantar “Eu não matei Joana D’arc”, “O ponteiro tá subindo” e “Pastor João e a Igreja do Invisível”. Sua performance, animada, provocadora e postura de vira-lata do rock, como ele mesmo se entitula, é um bom exemplar dos anos 80. Boa escolha da CUT. 

Já Nasi surpreendeu. Não cantou músicas da carreira solo, decepcionando os fãs e sua voz não estava nos melhores dias. No auge de uma das principais músicas da carreira do IRA! “Um girassol sem sol”, subitamente, a luz do palco acabou. Gritos de “Toca Raul” e “Vamo acender um!” tomaram o Vitória Régia. A luz voltou, mas muitos já tinham ido embora depois de mais de 20 minutos de espera. Nasi encerrou o show e o Primeiro de Maio da CUT de discussões importantes sobre comunicação, educação e maioridade penal. E claro, um bom e velho rock no Vitória.

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O batidão de Bauru

1 de maio de 2014
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MCs da VR Produções no Programa do Jacaré, vitrine do Funk

Texto: Solon Neto
Imagens: Divulgação VR Produções

O funk é um fenômeno de público, tem quebrado barreiras sociais e culturais devido à sua simplicidade, criatividade e apelo rápido. As letras abordam temas dos mais variados, ousam quando tocam a sexualidade, e são um deleite para os que gostam de dançar.

O e-Colab esteve com alguns Mc's bauruenses e um dos líderes do Funk na cidade, Divino Ribeiro, conhecido como Vinão, líder comunitário no bairro Parque da Nações e de uma das produtoras de Bauru, a "VR Produções". Por meio da produtora, nomes conhecidos do Funk brasileiro já vieram a Bauru, como MC Catra e MC Nego Blue.

Além de Vinão, estavam presentes MC Thomazz, de 22 anos, o MC Duzap, também de 22 anos, MC Vitinho GSP, de 17 anos, MC Flech, de 18 anos, que faz dupla MC Venom, dois anos mais velho. Os MC's moram em vários bairros diferentes da cidade, como o Colina Verde, o Gasparini e o próprio Pq. das Nações, que serve de sede de reuniões para a produtora.

O grupo organiza shows em Bauru e região, além de produzir o DVD Boladão Funk Bauru, que desde 2012 reúne cerca de 20 artistas por ano para gravar apresentações em uma única noite. Cada DVD é distribuído e vendido pelos próprios artistas, que repassam milhares de cópias para a cidade e dividem o entre si o que arrecadam.





O ritmo sofre preconceitos, principalmente por sua origem de periferia e letras que desafiam os limites dos dogmas da classe média. Thomaz Pereira Pardino, de 22 anos, o MC Thomazz trabalha com funk desde 2010 na cidade. Thomaz observa que quando começou, os artistas eram poucos, e a que o crescente sucesso do ritmo na televisão, nos bailes e na internet, aumentou muito o número de artistas na cidade. Ele comentou os preconceitos que envolvem o ritmo:

“Tem diversos temas adotados pelos Mc's de funk no Brasil. Tais como: Ostentação, Realidade, Apologia, Putaria e outros mais. E se você reparar, verá que são faladas tudo claramente. De repente seja por ser esse um modo de expressão que não se encaixe no perfil da sociedade.”

A organização com a produtora do Pq. das Nações gera uma facilidade aos MC's que se soma à de gravar pequenos vídeos e veicular o trabalho na internet, o que intensifica sua divulgação: “O Facebook e o Youtube facilitou mais ainda as divulgações pelas visualizações. Esses são os principais jeitos que eu usava e uso para as divulgações de minhas músicas.” comenta Thomaz.

A divulgação online das músicas toca na questão dos direitos autorais e da difusão livre do material produzido pela internet, ao que Thomaz responde: “Claro que é lamentável o fato de adquirirem o nossos trabalhos sem sermos recompensados por direito. Mas por outro lado, se não tiver resultados financeiros pela difusão livre, acredito que os resultados virão em shows. Então eu defendo. Pois muitos cantores de sucesso estão lá pela ajuda da tal difusão livre do download.”

Além de gravar o DVD, a VR Produções levou seus MC's, em 2013, ao “Programa do Jacaré”, conhecido por revelar artistas de funk. Há planos para que voltem ao programa em breve.

Em 2014, a VR produções pretende voltar ao programa. O dvd Boladão Funk Bauru foi gravado na casa de shows Muamba Music, que fica na Av. Duque de Caxias e sedia eventos do Funk Bauruense. O lançamento está previsto para as próximas semanas.

No próximo sábado, 3 de maio, a partir das 16h, vai rolar o Baile Funk da Comunidade, no Jardim Nicéia e os MCs do Vinão prometem fazer barulho na comunidade.
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Cinema Independente: O Rap pelo Rap

28 de abril de 2014
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Por Keytyane Medeiros
Fotos: Divulgação/Arquivo Pessoal

Passei alguns dias pensando em como escrever sobre algo que já vi, mas que sei que existe uma expectativa grande em torno dele. A minha expectativa foi - muito positivamente - vencida, alguns meses atrás.

Conheci o documentário “O Rap pelo Rap” antes por uma razão simples: Pedro Henrique Fávero, diretor e idealizador do projeto, apresentou o doc. como TCC, Trabalho de Conclusão de Curso de Rádio e TV na Unesp Bauru, no início de 2014 e fui lá dar uma espiada no trampo.

Produzido entre 2012 e 2013, O Rap pelo Rap contou com a participação e declarações de mais de 40 rappers, MCs e produtores musicais. Estão lá desde os mais antigos como Sandrão (RZO), KL Jay (Racionais) e Dexter até artistas mais novos como Criolo, Shawlin e RAPadura Xique Chico. O doc. também aborda as mulheres na cena Hip Hop, representadas por Lívia Cruz e Carol Konká - um número pequeno, é claro, mas pra falar das mulheres no Rap, seria preciso um outro doc. - e  finalmente, o documentário de Fávero chega à caras de peso na indústria fonográfica independente no Brasil, como Nave Beatz e Daniel Ganjaman.

Pedro Fávero. Diretor, roteirista e idealizador.
Pedro se propôs a nos “mostrar como o Rap é heterogêneo. Que não cabe em rótulos, que muda com o tempo, mas que ao mesmo tempo tem muito a falar e questionar sobre ele próprio”, afirma. Inspirado em Eduardo Coutinho e em outros documentários e filmes do cenário independente, como Mestres do Viaduto e Mr. Niterói, “O Rap pelo Rap” tem um formato próprio. Não conta a história do rap no Brasil dos anos 90 ou 2000 pra cá, através da trajetória de um artista, mas se propõe a dar voz para que os principais ícones e nomes do rap nacional possam expor o que pensam justamente sobre o rap nacional.

Ao colocar vários ícones do movimento hip hop em destaque, o documentário, naturalmente, traz falas que dialogam entre si e outras que se colocam em oposição, como no tópico “A revolução será televisionada?”, que fala sobre a relação do rap com a mídia. E aí que mora a beleza do negócio. Não gera a polêmica de quem está certo ou quem tá errado no rap, são opiniões divergentes, apenas. O próprio diretor destaca que “esse formato se encaixa bem no formato do rap, que não tem um artista referência e sim vários, com diversas opiniões”.

A equipe que realizou essa empreitada com o Pedro era reduzida também. Produzido de modo colaborativo, as entrevistas do doc. eram feitas com uma ou duas pessoas e alguns amigos ajudaram com a identidade visual do projeto. Só com o rascunho do roteiro em mente, pouca grana e uma câmera na mão, o projeto começou. As entrevistas foram feitas em Bauru e em São Paulo e só a edição durou 6 meses. Não me lembro algumas coisas daquela banca de TCC – os professores doutores costumam falar muito – mas lembro que Pedro disse que se viu obrigado a reduzir 6h de material em 73 minutos de vídeo.



“Tentei organizar a edição de forma que ficasse interessante de assistir, com ganchos, falas contraditórias e concordantes entre si, momentos de descontração... pois ficar mais de uma hora ouvindo pessoas falarem pode ser muito maçante”, ele conta. Realmente deve ser chato, mas dessa vez não foi.

A estréia vai acontecer essa semana, no Festival Internacional de Documentários Musicais – IN EDIT BRASIL, no Cine Olido e na Matilha Cultural (abaixo mais info!). Mas ainda vai demorar um pouco para podermos vê-lo pela telinha do PC, O Rap pelo Rap só vai ser lançado na internet em 2015, pois agora o foco está nos Festivais de cinema independente.


Até lá, Pedro tem lançado teasers pela página do Facebook/O Rap pelo Rap e outras redes sociais. Os teasers com o GOG, Mano Brown e Neto (do grupo Síntese) tem recebido bastante atenção entre os fãs do rap e foram publicados em páginas como Rap Nacional DownloadVai ser Rimando e Noticiário Periférico.

Seja como for, muito provavelmente irei ver o doc de novo em São Paulo e deixo aqui, o máximo que posso dizer sobre ele e a impressão de que o cinema independente nacional ganhou mais uma importante e inovadora peça.



***A programação completa do In EDIT Festival você pode acompanhar neste link.
Preparem as pipocas e o refri! 
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Trocando Ideia: Renan Inquérito

25 de abril de 2014
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Integrante do grupo de rap Inquérito e autor do projeto #PoucasPalavras, Renan Inquérito conversou com a equipe do e-Colab sobre Sarau, Rap e cultura Hip Hop. A troca de ideias foi nessa quinta-feira, 24 de abril, no 3º Sarau de Arte Urbana realizado pelo Ponto de Cultura Acesso Hip Hop em parceria com a Oficina Cultural Glauco Pinto.

e-Colab: Você começou em 1999 com o Inquérito e de lá pra cá, muita coisa mudou. Como essa mudança refletiu no cenário do Hip Hop e dos saraus urbanos no interior de São Paulo?

Renan Inquérito: Mano, mudou pra caralho né?! (risos) Tudo mudou, o mundo mudou, as pessoas, a velocidade com que a informação circula, isso muda tudo. Por exemplo, eu ia na galeria, juntava dinheiro três meses pra comprar um vinil importado que custava 50 dólares. E naquele vinil tinha uma música do 2pac (Tupac Shakur, considerado o maior rapper da história) cantada de um lado e o instrumental do outro. E eu pegava o instrumental pra mandar meu rap. Custava dólar, era mó caro. E agora? agora você vai na internet, “baixar todas bases instrumentais do 2pac”, brum. Então mudou, é mais fácil agora. Digamos assim, antes era rua de terra, agora é asfaltadinho, tem ciclovia, faixa para pedestre. Só que outra coisa, abriu pra todo mundo: ruim, bom. Então, da mesma maneira que ampliou os horizontes, a qualidade ficou um pouco prejudicada, mas eu acredito que a qualidade vai sempre superar a quantidade.

Aí o rap também mudou. Veio os rótulos: underground, bate cabeça, gangsta, começamos a ver outras fitas. Era tabu falar de dinheiro no rap, de mulher. Os caras falava que o cara que tinha um UNO era um boy! Quando falava de mulher, a letra era machista pra caralho, até hoje é ainda assim, eu acho, mas mudou. A mulher se impôs no bagulho também. Nós vimos também que tempo não é nada. Tem cara que tá há 20 anos, e tá há 20 anos atrapalhando. Podia ser um produtor, um jornalista, um fotógrafo, não dá pra todo mundo ser MC. A gente precisa de professor de história, só que ele ser do movimento hip hop, de médico do hip hop, de presidente do hip hop. 

e-Colab: Apesar da base do rap ser a poesia, para compor uma música, tem que pensar nos beats, no flow, etc. Então, pra você, existe alguma diferença no processo de produção de uma poesia que vai ser lida e de uma letra de rap?

Renan Inquérito: A poesia, assim como o rap tem que ser livres. Os concretistas, Haroldo de Campos, Décio Pignatari, são mestres, mas parecia que queria dificultar o bagulho: tinha uma equação matemática para entender o poema! Tinha que ter um formato, tipo uma caixinha. Só que o rap extrapolou o lance da caixinha. Só podia fazer música, quem entendia de música. E o moleque da quebrada que nunca teve a oportunidade de estudar um instrumento, mas queria fazer música? O rap democratizou isso. Muita gente no começo falou “o rap não é música”, porque o rap era efeito de qualquer jeito, mas a gente foi provando, foi pondo qualidade, porque começou precário, era batendo na lata (bate no fogão e faz uma rima). Era lata de lixo na São Bento. Hoje é MPC. Hoje tá aí, pra todo mundo.

e-Colab: Numa entrevista da Bravo! você fala um pouco sobre a auto-estima da periferia. Como você acha que a auto-estima da população que mora na periferia se transformou ao longo do tempo, com a prática dos saraus, que tão estourando agora lá em São Paulo e com o rap, que tá aí desde os anos 80?
Renan Inquérito: O rap trouxe autoestima pro cara da periferia, porque ele parou de ter vergonha de usar a roupa que ele usava, de falar onde morava, de usar o cabelo dele. Porque somos um país um miscigenado, aquela mistura, mas nem tanto….eu vi um trabalho de um cara que analisou todos os censos do IBGE e ele elenca todas as cores que aparecem: mulato, bege, cor de burro quando foge! Nós temos uma crise de identidade fudida no Brasil. E o rap deu esse orgulho pra nós, ta ligado? Quando o cara canta “essa é a vida de muitos em São Mateus, pequeno e pobre, humilde, mas um bairro meu” e eu pensei “caralho, o meu também!”. O rap traz aquela coisa do pertencimento, do lugar. Mas isso se perdeu um pouco, quando o rap se popularizou, virou um produto e se perdeu. E aí entra o Sarau. O Sarau foi uma ambulância, um balão de oxigênio, porque os caras achavam que não tinha mais que fazer letra importante. “Só rimar qualquer coisa, pro rap ser dançante”, ouvi muito isso. Então nós achamos um monte de coisa, que tinha que esvaziar o conteúdo, aumentar a velocidade. E o Sarau veio trazendo conteúdo. E os moleque que fazia conteúdo e perderam espaço, onde eles iam mandar suas rimas? No saraus. Então o sarau ajudou muito o rap e vice-versa. Quem era público do sarau? Os manos do hip hop, ou você acha que tinha um monte de poeta na periferia?! Não tinha e pelo problema da autoestima, o cara não acreditava que podia escrever. Então o cara ia lá e mandava seu rap. Então, num primeiro momento quem ajudou os saraus foi o hip hop. E hoje, o hip hop que ajudou o sarau é ajudado pelo sarau. E não tem mais como separar, misturou tudo.


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